Friday, January 26, 2007

  • Tão bonito que até dói!

    Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mão à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
    Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar.
    Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! e eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
    Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor..., já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas.
    Adeus.

( não consegui pôr esta coisa em forma de poema que é isso que ela é , mas continua na mesma lindo e doloroso)

Eugénio de Andrade " Adeus"

2 comments:

Inês de Castro said...

ui como isso anda...

Evaluna said...

quando eu era uma alegre estudante do 10 ou 11 ano aprendi uma cena em filosofia de um filósofo inglês do qual não me consigo lembrar o nome que falava do ser humano à nascença como sendo uma tábua rasa.
Depois começa a ser preenchida e tudo é absorvido e interiorizado...
bueno "filosofices
ps. o melhor remédio é ir cheirar os coentros eh eh

Pessoal o Sol nasce todos os dias!

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  • Cem Anos de Solidão
  • Até amanhã camaradas
  • O tempo das giestas
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