- Tão bonito que até dói!
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mão à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! e eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor..., já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
( não consegui pôr esta coisa em forma de poema que é isso que ela é , mas continua na mesma lindo e doloroso)
Eugénio de Andrade " Adeus"

2 comments:
ui como isso anda...
quando eu era uma alegre estudante do 10 ou 11 ano aprendi uma cena em filosofia de um filósofo inglês do qual não me consigo lembrar o nome que falava do ser humano à nascença como sendo uma tábua rasa.
Depois começa a ser preenchida e tudo é absorvido e interiorizado...
bueno "filosofices
ps. o melhor remédio é ir cheirar os coentros eh eh
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